O que é mais difícil não é escrever muito;
é dizer tudo, escrevendo pouco.
Júlio Dantas
Ele era uma daquelas pessoas sem rosto, como o trabalhador da construção de Chico Buarque, arrastando-se entre homens fortes, convencidos de seus dons para o trabalho duro. Havia a voz perene dos ditadores, políticos, sacerdotes e juízes, cobrando-lhe incessantemente responsabilidade e honestidade para não cair nas garras da lei dos homens ou, pior, nas garras da lei divina. Ainda quando não tivesse como pagar tudo que lhe era exigido pelo direito de existir, devia reconhecer que era um direito concedido por Deus, portanto, um direito sagrado e ao qual ele devia agradecer como um eterno devedor. Era como se ele carregasse todos os martírios cabidos ao trabalhador, embutidos nos mais fabulosos disfarces. Às vezes chegava a pensar que seria melhor ainda viver no tempo da escravidão, pelo menos poderia engrossar o caldo do feijão com os restos de porco rejeitados pelos senhores da casa grande e não teria de pagar pela moradia. E ele que hoje também trabalhava como um escravo, jamais poderia ter um daqueles apartamentos que ajudava a construir, hora em que mais se parecia com o “cidadão” de Zé Ramalho. Esse que tem um rosto, que já nasce com cara de fome, fadado a uma vida “severina”, lembrado por um assobio, chamado por um sibilo que silva e ecoa nos subúrbios das capitais. Esse que, apesar de tudo, tinha direito a uma alegria fugaz, gentilmente concedida pela generosidade das pessoas de valor na sociedade, tementes a Deus e merecedoras de respeito. Era com sua força de trabalho que Edmilson ajudava a construir o futuro do país. Recebera o título de colaborador, como uma ascensão social, por merecimento e pelo reconhecimento dos ditadores que sabiam de sua importância para o progresso da Nação. Uma lei obrigou a empresa a dar-lhe dignidade proibindo-o de comer em qualquer canto da obra, como fazia seu pai. Ganhara o direito de comer à mesa e a grande conquista compensava a perda de um tiquinho do salário que ia diminuindo a cada novo benefício com que lhe agraciavam e, pelo que, Edmilson deveria também ser grato.
Durante o almoço, o assunto discutido entre os colaboradores também adquirira feições de elevado nível intelectual. Palavras como sindicato, aumento salarial e greve estavam ultrapassadas. Discutia-se pena de morte para bandido, exigia-se o fim da corrupção dos políticos, penas maiores para pequenos infratores. Agora se falava em economia de mercado, termo que englobava todas as relações sociais entremeadas com o fascínio do enriquecimento. Era verdade que o Governo não tinha a mesma eficiência que a iniciativa privada para gerir os negócios do Estado, já que sempre lhe estava faltando recursos. Por isso também precisava da compreensão dos trabalhadores impondo-lhes sacrifícios com a promessa de que, um dia, haveriam de se tornar homens de bem e seriam recompensados com novos títulos e novas leis que garantissem o direito ao trabalho mais e melhor.
O canteiro de obras tornara-se a sala de reuniões dos colaboradores da empresa onde as opiniões se dividiam sobre as políticas equivocadas do Governo e cada um apresentava uma proposta para sanar os problemas da economia do país com críticas ferozes aos políticos ladrões, aos juízes parciais e aos sacerdotes impotentes. E a discussão sempre acabava com a concordância de todos de que, um dia, todos os seus algozes se veriam prestando contas de seus atos a Deus e, enfim, a justiça seria feita.
Ao ouvir aquela mesmice entediante, Edmilson sufocava a sensação de estar sendo violado pela ideia limitada que seus companheiros tinham de Deus. Com os mais absurdos argumentos, eles reduziam a divindade à pequenez de um rei qualquer. Assim, toda alegação sobre a bondade infinita de Deus era fútil, efêmera, quimérica e enganosa, o que fazia da divindade uma miragem provocada pelos seus desejos delirantes de um pouco de dignidade.
As insatisfações pessoais eram cochichadas de um a outro como se fossem segredos que envergonhariam aquele que os revelasse abertamente. Postura considerada imoral para aquele que almejava se tornar um cidadão de bem. Por isso, no final do dia, cada um voltava para casa fingindo-se conformado com a parte que lhe cabia neste grande latifúndio que é o mundo. Devia estampar sempre um ar de alegria e dizer que tudo tem melhorado e não pensar no aluguel que não pode atrasar. Mas para Edmilson, não era com ajuda de Deus, mas apesar de Deus, amanhã seria outro dia. Refugiava-se então nas palavras do poeta cantando em pensamento os versos de sua canção preferida.
No dia seguinte tudo recomeçava como um ritual enfadonho e sem novas esperanças, mas naquele dia, a boa nova ecoou no canteiro de obras.
Waldir, o apontador de obras, chegou eufórico pedindo a atenção de todos e disse cheio de orgulho:
— Ontem, finalmente, Deus veio me falar.
O riso foi geral.
— O que você bebeu? — perguntou o marceneiro.
— É sério! — explicou Waldir. — Deus me apareceu e me fez uma revelação. Disse que se arrependeu de ter privilegiado seus escolhidos, pois todos os povos são iguais e não há senhores nem escravos, mas todos devem ser solidários uns com os outros independentemente de sua nacionalidade ou religião.
Logo um dos pedreiros, franzindo o cenho, desconfiado, perguntou a Waldir:
— Ei! Você acha que a gente é idiota pra acreditar nisso?
— Haha — riu sarcasticamente outro. — Temos nosso próprio profeta agora!
— Waldir, o peão, virou o Profeta Campeão! — emendou outro.
Nelson, que a princípio não dera importância ao que disse Waldir, fez um comentário:
— Essa foi a maior besteira que eu já ouvi! Deus nunca se arrepende, porque Deus não falha.
Edmilson não pôde deixar de lembrar que Deus se arrependera de criar o homem e tentou destruí-lo por diversas vezes, expulsando-o do paraíso, afogando-o em dilúvio e queimando cidades inteiras. Mas continuou acompanhando em silêncio a acalorada discussão que se sucedia ouvindo atentamente cada companheiro.
Waldir argumentou com entusiasmo:
— Deus fez milagres durante quarenta anos apenas para conservar o calçado de Moisés no deserto até que ele conduzisse seu povo escolhido à terra prometida e não adiantou nada porque seu povo não chegou à terra prometida. Depois, Deus mandou seu filho a Terra para tentar salvar seu povo, mas ele fracassou e nunca mais tentou. Mais tarde, usando o pseudônimo de Alá, Deus disse a Maomé que os muçulmanos eram seu povo escolhido, portanto todo o povo de Moisés e também os idólatras do seu filho deveriam ser mortos. Pode dizer que Deus não falhou?
Um ajudante o interrompeu perguntando num tom mais sério do que os outros, mas não menos irônico:
— Por que Deus falaria com você e não com o Papa?
— É — corroborou Nelson. — Por quê?
Waldir não se deixou intimidar.
— Ora, pelo mesmo motivo que ele não escolheu o Dalai Lama.
Com um ar pensativo, Nelson refletiu:
— Mas quem vai dizer qual religião está certa?
— O que está acontecendo aqui? — interrompeu o mestre de obras que acabara de chegar.
— Deus falou com Waldir ontem — precipitou-se Nelson.
— E daí? — questionou o mestre de obras. — Deus também falou comigo ontem.
Nelson quebrou o silêncio inquisitório que se fez, perguntando:
— Deus também apareceu para você?
— Claro que não!
— E como ele lhe falou?
— A palavra de Deus está na Bíblia. É eterna e imutável — respondeu o mestre de obras convicto. — Basta ler para saber o que Deus lhe diz.
— Então? — perguntou Nelson com curiosidade. — O que lhe disse a palavra de Deus ontem?
Os rostos dos homens tinham uma expressão de grande expectativa.
— Disse que os servos devem se sujeitar a vossos senhores com todo o respeito, não apenas aos bons e sensatos, mas também aos perversos. Vocês são os servos e eu o senhor. Todos ao trabalho!
— Viu! — exclamou Waldir. — É Deus mesmo que manda uns escravizarem os outros.
— Exatamente! — concordou o mestre de obras. — E qual o problema?
— O problema é que não é justo Deus condenar o escravo à miséria enquanto ensina os senhores a roubar.
— Meu Deus, olha pra isso! — exclamou Nelson atônito. — Esse Waldir está maluco! De onde você tirou que Deus ensina a roubar?
— Da sua palavra eterna e imutável — redarguiu Waldir abrindo a pequena Bíblia que sempre trazia consigo em Êxodo, capítulo três, versículo vinte e um, e continuou: — Pois bem! Ouça: “E eu darei graça a este povo aos olhos dos egípcios; e acontecerá que, quando sairdes, não saireis vazios, porque cada mulher pedirá à sua vizinha e à sua hóspede, joias de prata, e joias de ouro, e vestes, as quais vós poreis sobre vossos filhos e sobre vossas filhas; e despojareis os egípcios”. E o que quer dizer despojar? — concluiu Waldir perguntando.
— O quê? — perguntou Nelson olhando inseguro para o mestre de obras que se fingia indiferente aos argumentos da discussão.
— Significa tirar de uma pessoa alguma coisa que lhe pertence por meios ilícitos, isto é, roubar. É o que Deus manda seu povo escolhido fazer.
Enquanto todos estavam paralisados pela perplexidade com aquela constatação, Edmilson ficou reflexivo. Para eles tudo era criticável, menos a justiça de Deus e sua bondade infinita. Observava que todos fechavam as suas janelas para os versos que Waldir recitava. Não se obrigavam a ouvir as palavras daquele homem de mãos desarmadas que usava então a palavra de Deus para demonstrar uma verdade que estava à vista de todos. Para Edmilson, nada do que Deus tivesse dito ou viesse a dizer explicaria porque dava muito a alguns e tão pouco a outros. Voltou a cantarolar sua canção preferida na mente.
O debate havia se transformado numa disputa entre Waldir, para provar sua verdade, e os outros, para refutá-la, até a chegada do engenheiro. Surpreso com aquela agitação inusitada perguntou o que acontecia por ali.
— O Waldir disse que Deus lhe falou em pessoa — esclareceu Nelson. — E Deus mandou uma mensagem para nós.
— Que mensagem?
— Disse que somos todos iguais. Não existem senhores nem escravos.
O engenheiro deu uma risada e concluiu:
— Bom! Deus podia muito bem esclarecer isso para a humanidade em edição extraordinária em todas as rádios e televisões do mundo. Assim falaria a todos de uma só vez. O que vocês acham?
Cada um deu sua opinião e eles iniciaram um novo debate acerca da vontade e onipotência de Deus. Em dado momento, Waldir olhou para Edmilson que se mantinha calado e perguntou:
—Ei! Edmilson. Você não diz nada?
— Parece que Deus não consegue fazer a coisa certa.
Alguns murmuraram escandalizados com aquela observação totalmente fora do contexto.
— Ah é! — exclamou Nelson num tom desafiador. — E, por acaso, você faria diferente? Se você fosse Deus ia dizer que é para dar tudo ao escravo e nada ao senhor?
O velho ateu poeta de Eduardo Gudin lhe veio à mente lembrando-lhe que se fosse Deus, daria aos que não tem nada. Edmilson refletiu sobre sua canção preferida e ousou ir além.
— Ora! Não existe nada no universo que impeça Deus de dar tudo a todos sem dizer palavra.
Velho ateu
Eduardo Gudin e Roberto Riberti